segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ergue os olhos, Hannah!

"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!"

Então, dirige-se a Hannah:
"Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!"

(Discurso final em "O Grande Ditador", Charlie Chaplin, 1940)

domingo, 25 de março de 2012

Panapaná de Emoções

A blusa torta, o cabelo bagunçado e o par de meias errado. Odiava a chuva e o destino. Na verdade, odiava qualquer coisa que estivesse além do seu controle. Tinha um desprezo especial por insetos e microorganismos...

Era o Golias para as pequenas formigas Davi. Assistia empolgada as miúdas carregarem até dez vezes o próprio peso, só pra no fim serem pisoteadas próximas à boca do formigueiro. Um sorriso psicopata nascia, enquanto personificava cada cadáver: “Ladrão de comida...”. Aposto que era dessas crianças que queriam loucamente uma lupa pra fritar com um só pontinho a família Formicidae inteira no domingo de descanso.

As borboletas não escapavam desse ódio. Nem as borboletas-coruja enganavam com aqueles olhos escuros nas asas. Efêmeras, batiam as asas rapidamente e, inconscientemente, o piscar da platéia humana entrava em sincronia. Mesmo donas de tanta beleza e luxúria, espantavam a garota rapidamente, que cheia de raiva, queria arrancar-lhes as asas ali mesmo. Apostando novamente o dinheiro que não tenho, aposto que ela andara lendo uns artigos sobre a Teoria do Caos no passado: O bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e assim provocar um tufão do outro lado do mundo. “Pois matem logo todas as borboletas, antes que o tufão aconteça!”, seus pensamentos, talvez?

A Guerra Insecta aconteciam todos os dias. Era como assistir os bombardeamentos da WWII, a destruição que a sua mini-fogueira causava ou o seu tubinho de inseticida, um spray de pimenta na oposição. Vez ou outra o minúsculo lado revidava, usavam as abelhas com seus ferrões como pequenos mísseis alérgicos. Eram corajosas kamikazes! Um dia presenciei um ataque a mão esquerda da menina, a listradinha voadora colidiu com força tentando enfiar fundo no músculo e depois soltou o ferrão de seu corpo, deixando suas vísceras e morrendo por sua nação.

***

Mas... Ah, confesso... Já presenciei uma bandeira branca, um acordo rápido de paz, um armistício! Encontrei-a esperando o ônibus de sempre no ponto de sempre... Carregava sua maleta meio-aberta-meio-fechada e usava uma saia meio-limpa-meio-suja. Eu não sabia seu nome – até hoje não sei -, mas descobri muito sobre ela nos dez minutos seguintes.

Ao seu lado, mesma pele, mesma cor de cabelo e mesmo rosto, uma versão melhorada de si mesma. Irmãs gêmeas... Essa era arrumada, parecia mais alta, mas era só impressão. Sorria e não tinha nada meio-isso-meio-aquilo: era íntegra em perfeição. Gêmeas, claramente uma lagarta e outra borboleta.

A Meio-a-Meio se aproxima do chão de areia perto das árvores enquanto a Outra conversava sossegadamente com os colegas. Esquecida do resto do mundo passou a pisar e chutar grãos de areia para o mundo! Deixava a marca da sola do sapato em todo canto, marcava, marcava, marcava. Odiava a superfície perfeita da areia? Queria destruí-la também? Ou queria deixar suas pegadas ali? Marca efêmera de sua pequena crise existencial às quatro horas da tarde de uma quinta-feira de estudos?

(Ambos?)

O próximo passo sobre areia seria o último carimbo no monte de terra. Empolgado, eu esperava seu grito: “Eu estou aqui, Mundo!”, como uma formiga que carregou dez vezes o seu peso e implora por sua vida quando vê a sombra de um pé. Mas o vento já apagava suas pegadas iniciais – como odiava coisas que estivessem além do seu controle. No meio do deserto de pegadas, um casulo... meio-aberto-meio-fechado. Paralisada, a saia branca meio-limpa declarando uma paz temporária. Agora de cócoras, analisava a luta de uma meio-borboleta-meio-largata que tentava desesperadamente sair daquele invólucro de seda. Meio-a-Meio olhava para os lados como se quisesse chamar a equipe médica de panapanás... “Saia, saia, saia”. Nada. Em um ato inconsciente e tão desesperado quanto à voadora belbellita, estende os dedos magros para desfazer aquele casulo sufocante, corta com as unhas sujas aquela seda e assim amputa também as asas de sua inimiga. Tremendo, vê a beleza se desfazer nos seus dedos... Por quê? Atrofiada e sem poder voar, para que lhe serve a beleza?

Oh, meu bem, ela morreu, foi? — Uma voz idosa quebrara o silêncio. — Você vê, dizem que não pode ajudar uma borboleta a sair do casulo não. Além do perigo de cortar errado, dizem que elas precisam destruir o casulo com as próprias asas, porque só assim elas ficam fortes, meu bem. Mas você tentou ajudar, a borboleta não culpa você pela perda da vida dela, não! Além do mais, qual a importância de uma borboleta assim, já que agora só parece lagarta? Não liga não, meu bem... — Alguns “meu bem” foram citados novamente, mas esses eu já esqueci, pois estava vidrado nos olhos da Meio-a-Meio.

Com as asas na mão, não tinha perigo de tufão. Mas quem poderia culpar essas pequenas borboletas que saiam dos casulos, se o piscar de Meio-a-Meio... era como um bater de asas de borboletas? Estaria ela causando o Caos? O céu estava claro e limpo, mas da pequena (la)garota de saia meio-suja-meio-limpa o tufão vinha com chuva de lágrimas.

Como odiava qualquer coisa que estivesse além do seu controle.

Sumiu da minha vida como as suas pegadas sumiram da areia...
Foi impedir o tufão que causou do outro lado do mundo?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

"Opala Metálico Azul"

Querido diário,

Hoje a conversa é sobre o Futuro. Parece que quando você entra no terceiro ano do ensino médio, o tal ano decisivo, tudo vira reflexão sobre a vida, o futuro e a idade. Você entra com dezesseis, esquece do dezessete e quando vê já está fazendo os planos pros dezoito anos... Coisa complicada essa da idade. Na minha opinião, todos os jovens deveriam ser presenteados com um volta ao mundo até os vinte anos de idade! Dois anos de pura busca do sentido da vida, o segredo do Cosmos ou qualquer desculpa esfarrapada para umas boas férias pr’alma.

Confesso que estou calma em relação às decisões sobre o futuro (mas é só fevereiro, espera a ficha cair! Aí a coisa desanda!), porque não tenho nem direito de decidir com dezessete algo que vou querer pro resto da vida, ainda mais analisando a pouquíssima bagagem que carrego agora, a maleta “experiências pelo mundo afora” está praticamente vazia. Até porque isso de “resto da vida” é um draminha batido que todo mundo comenta, como se eu não pudesse enlouquecer no meio do caminho e mudar de direção sem razão certa (o que não é muito recomendável para pais e parentes com problemas de coração)... A coisa é que nem o futuro é certo e confirmado.

(Fim do mundo em 2012! Imagina ficar morrendo de preocupações à toa?)

O papo de hoje nem é muito esse, na verdade, o papo de hoje não é especial. Idade é uma coisa confusa, a gente costuma relacionar maturidade, experiência de vida e sabedoria com tais dígitos. O papel em que escrevo foi produzido semana passada e as árvores pinus ou eucalipto usadas são de uns sete anos atrás. Da árvore até o papel é uma vida e eu posso dizer que ainda sou a muda a ser plantada ou semente a germinar no solo, isso porque existo a mais tempo que a pinus... Nessas dezesseis primaveras, é como se eu estivesse presa na mesma estação e só aos dezoito finalmente o verão chegaria, depois o outono e os difíceis dias de inverno. Alguém coloca um rótulo “frágil” na maleta dos dezoito? Pra que ninguém toque nela antes do tempo? Ou alguém abre logo a maleta pra mostrar pro mundo que a maleta dos dezoito não é muito diferente da dos dezenove? Ou dos vinte? Essa pressão de “Pense como um adulto!” é o que mais me confunde, não foi ontem mesmo que eu escrevi uma cartinha pro colega sobre as férias da quarta série?! Esse ciclo vicioso não está funcionando direito comigo. Está com vocês? Veteranos da Guerra dos Dezoito, conte-me as suas experiências. Existe toda aquela desilusão depois de completar as dezoito primaveras? Como se o espírito não passasse por toda aquela experiência inovadora que prometem nessa idade? É tudo como promessa de político?

Ai, ai diário. Estou é meio sonolenta e com a cabeça pesada... Meu professor comentou algo como “quem faz isso aqui é inteligente, agora quem fica de tal forma é trouxa”. É normal querer ser o trouxa da situação e ficar despreocupada em certos momentos? Sou revolucionária de sofá, confesso. Quero mudanças, mas não luto por elas. Meu estresse já grita através da psoríase, imagina esse ano? “Terceiro Ano mata jovem de 16 anos, acusado alega inocência e pode ser julgado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar".

Uma coisa é certa: Pra comemorar meus dezoito anos, vou comprar vários docinhos e ler meus livros infantis favoritos. Existe coisa mais madura?

(Mas por enquanto eu canto Dezesseis do Legião Urbana, porque mereço minha fase Opala Metálico Azul)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Rua 23

Todo dia ela vinha
passava em minha rua
em seu vestido de bolinha

As horas ganhavam mais quatro barrinhas
sete virava oito no relógio digital
Logo cedo assoviava a mesma melodia
"estátuas e cofres e paredes pintadas..."

Nas casas as pessoas dormiam
como se estivesse mortas
Nas ruas os mortos não se moviam
como se estivessem dormindo

Era uma terça-feira 23 de verão
um grito as sete e cinqüenta e cinco da manhã
uma senhora encontra o corpo de uma jovem
como um anjo caído do paraíso
em frente ao prédio de 9 andares

As bolinhas pretas e brancas agora eram vermelhas
rostos gritavam em desespero: “suicídio, nunca vi coisa assim!
Ela se jogou da janela do quinto andar...”
Nada fácil de entender, dizia a canção

Esperei em minha janela
a menina não passava mais
Tristeza leve sentia
sem ter percebido o que ali acontecia

Se tivesse olhado menos para o vestido
mais para os pulsos
Ali estava a contagem dos dias
“23 cicatrizes e ninguém percebeu”

Olhasse menos para o cabelo loiro
e mais para os olhos pretos gritando “socorro”
Aquele dia não a ouvi cantarolar a canção
ainda era sete com suas três barrinhas
a morte tinha pressa
enquanto eu tomava café na cozinha

As oito e quinze a encontrei morta
os lábios azuis que combinavam com sua sapatilha
Sua fragilidade exposta ao mundo
o cabelo preso num laço e presilinha


Estou a 23 dias sem sonhar.

"Dorme agora,
é só o vento lá fora..."

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Cúbiculo Mental

“Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos. Ali também, em letras minúsculas, porém nítidas, liam-se as mesmas frases; do outro lado a cabeça do Grande Irmão. Até do dinheiro aqueles olhos o perseguiam. Moedas, selos, capas de livros, faixas, cartazes, maços de cigarro – em toda parte. Sempre os olhos fitando o indivíduo, a voz a envolvê-lo. Adormecido ou desperto, trabalhando ou comendo, dentro e fora de casa, no banheiro ou na cama – não havia fuga. Nada pertencia ao indivíduo, com exceção de alguns centímetros cúbicos dentro do crânio.”

(o Grande Irmão zela por ti)

(George Orwell, "1984")